quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Miguel Falabella, o cronista

Crônica: Tempos verbais

Clarice Lispector diz que a palavra mais importante da língua portuguesa tem um som de letra: é. E ela tem razão. Não é preciso muito mais para definir-se o momento. É justo. Seco. Bom o bastante para o aqui e agora, sem os temores do será, ou a nostalgia do era que, com o passar dos anos, vai-se fortalecendo e embaralhando a noção de tempo. As rugas que vamos descobrindo na superfície são as pontas de profundos icebergs e, ao tentar mapeá-los, frequentemente, trocamos o é por sua forma no pretérito. Na maturidade, aquilo que era vai ganhando cada vez mais espaço, até que um dia cruzamos a tênue linha que delimita o tempo e avançamos sem medo na direção do passado.

As tempestades da alma, tão comuns na meia-idade, na verdade, são vislumbres do futuro e a bonança, que se segue a elas, sopra o vento das saudades sazonais, que chegam inexoráveis, instalam-se sem aviso prévio, tomam conta de tudo e não têm data marcada para a partida.


Nesses últimos dias, por exemplo, de baixas temperaturas em São Paulo, muitos ensaios e muita correria, o vento trouxe meu pai de volta. Talvez porque a última vez em que tenhamos ficado juntos foi nesse apartamento. Ele dormiu comigo e lembro que conversamos até às tantas; ele me contou novamente o meu nascimento, uma história que ele adorava repetir.

As crianças de olhos azuis nascem com os olhos muito claros e, por um momento, papai acreditou que eu fosse cego. Tio Olavo, que fazia todos os partos da família, dissipou-lhe os medos, mas a história, que ele me contou mais uma vez, na última vez em que estivemos juntos, valeu-me o apelido familiar de olho branco. Curiosamente, aquele homem que era o arquétipo do carioca da gema, que adorava andar de peito nu pela praia da infância, ficou para sempre guardado neste meu apartamento de concreto, que hoje resolveu engolir a noite gelada e sem estrelas.

A cama e o colchão ainda são os mesmos. Eu tento adivinhar-lhe a forma, ao meu lado, naquela noite de alguns anos atrás. Ele ficou viúvo muito cedo e nunca conseguiu superar a perda do amor da sua vida. Foram essas as suas palavras, no corredor do hospital, quando mamãe avançou decidida para o passado. Nunca mais pensou nas coisas do amor, mas, como ainda era jovem, nós fizemos de tudo para que ele se interessasse por alguém. Finalmente, ele arranjou uma namorada e manteve com ela um relacionamento por alguns anos. Um dia, ele almoçava comigo e falávamos dela, quando eu perguntei, assim como quem não quer nada, se ele estava feliz, se gostava daquilo que estava vivendo.

- Você gosta dela, pai? - eu perguntei, atrás da intimidade que, hoje eu sei, tanto eu quanto ele buscamos desesperadamente um no outro.

Papai me olhou, surpreso com a objetividade da minha pergunta, e respondeu sem alterar o tom.

- Ela me dá lanche - ele disse, e deu o assunto por encerrado.

A resposta lacônica virou piada entre os irmãos, mas hoje, escrevendo nessa noite cada vez mais fria, eu entendo a justeza daquela frase. Ela me dá lanche é apenas mais uma tradução do é de Clarice que abriu a crônica. Simples e definitivo. Como a saudade é.

Revista Isto É - 17/06/09

Abraços!

Nenhum comentário:

Postar um comentário